Quando Humberto Gessinger descreveu "gente demais, com tempo demais, falando demais, alto demais", não estava escrevendo sobre o Direito - mas poderia estar. A IA generativa armou o profissional raso com volume e aparência de erudição, enquanto elimina a divergência que faz o Direito avançar. O consenso algorítmico não é segurança jurídica: é paralisia intelectual com boa formatação.
A canção Alexandria abre com uma imagem de saturação: vozes em excesso, palavras sem peso, ruído sem mensagem. O Direito, atualmente, vive exatamente esse cenário. Petições de oitenta páginas são geradas em minutos. Pareceres com estrutura impecável circulam em volume industrial. O problema não está no texto produzido - longe disso - está no que ele encobre: a ausência, cada vez mais frequente, de raciocínio jurídico genuíno por trás da formatação. A inflação de palavras é o sintoma. A terceirização do pensamento é a doença.
Gessinger vai além do diagnóstico superficial quando escreve que "a gente queima todo dia mil bibliotecas de Alexandria." A metáfora não é sobre destruição física, é sobre homogeneização. A Biblioteca de Alexandria era plural: reunia textos em tensão, saberes contraditórios, visões de mundo incompatíveis. Era a divergência materializada em acervo. Quando cinco advogados enfrentam o mesmo problema jurídico, produzem cinco teses distintas, cada uma refletindo uma hierarquia argumentativa diferente, uma leitura específica dos fatos, uma aposta estratégica particular. Quando cinco sistemas de linguagem generativa recebem o mesmo prompt, convergem para a resposta estatisticamente mais provável. A biblioteca não pega fogo, ela se torna um único livro, repetido ao infinito.
O fenômeno comportamental por trás disso tem genealogia conhecida. O profissional que antes construía peças por colagem de modelos prontos, sem dominar a técnica subjacente, não era uma novidade (ele sempre existiu). O que mudou é que a IA generativa lhe conferiu escala e, mais grave, aparência de autoridade. Textos estruturados, linguagem técnica, bullet points organizados. A embalagem ficou sofisticada sem que o conteúdo acompanhasse. O Efeito Dunning-Kruger (a tendência de quem pouco sabe a superestimar sua própria competência) ganhou aqui uma prótese tecnológica. O medíocre empoderado não sabe que é medíocre porque o output da máquina parece competente.
É aqui que outro verso de Alexandria atinge com precisão cirúrgica: "a gente teima, antes temia, já não sabe o que sabia." O temor técnico, aquele desconforto produtivo diante de uma tese mal fundamentada, de um prazo processual impreciso, de uma máxima procedimental desconhecida, era um freio. Ele obrigava o estudo, a consulta, a humildade intelectual. Quando a tela devolve uma resposta confiante e articulada, esse temor se dissolve.
O profissional sem formação dogmática sólida passa a confundir a fluência do texto gerado com a correção do raciocínio jurídico, e isso gera um passivo oculto para o cliente que só emerge quando o processo já está comprometido.
Diante desse quadro, surge o argumento defensivo mais recorrente: a IA apenas estaria "padronizando o que precisava ser padronizado", trazendo previsibilidade a um sistema caótico. O argumento merece ser levado a sério (e depois desmontado). Há uma distinção conceitual que o debate tecnológico costuma ignorar: previsibilidade judicial é um valor constitucional, desejável e necessário, porque garante que casos semelhantes sejam tratados de forma semelhante e reduz o arbítrio. Previsibilidade de pensamento é outra coisa, é a uniformização das teses antes de chegarem ao judiciário, o nivelamento das estratégias pela média do mercado. A primeira fortalece o Estado de Direito. A segunda empobrece a jurisprudência e o debate jurídico, porque priva os tribunais do atrito argumentativo que alimenta novos entendimentos. Alexandria não era previsível, e era por isso que era insubstituível.
Modelos de linguagem funcionam por probabilidade. Treinados sobre o corpus do que já foi escrito, tendem a reproduzir o que a maioria já disse, o consenso ponderado da produção textual disponível. Isso não é um defeito: é uma característica de design. O problema não está na máquina; está no uso. Quando um advogado delega à IA não apenas a redação, mas a arquitetura da tese, a escolha do fundamento, a hierarquia dos argumentos, a leitura do caso concreto, ele nivela a defesa do cliente pela média estatística do mercado. Teses jurídicas que hoje são consolidadas começaram como divergências ousadas. O contraditório qualificado que as fez avançar não teria sobrevivido em um ambiente onde todos partem do mesmo prompt.
A saída não é o recuo tecnológico. A IA resolve com competência o que pode ser padronizado: extração de dados contratuais, análises preditivas, checagem de prazos e documentos, identificação de precedentes, estruturação de rotinas documentais, validação de consistência formal, e até mesmo suporte na escrita de peças técnicas. Essas funções consomem tempo e energia cognitiva que o profissional pode redirecionar para o que a máquina não alcança. A fronteira está clara: otimização e execução pertencem à tecnologia; arquitetura da tese, aplicação de máximas processuais e leitura empírica do litígio pertencem à mente bem treinada. Cruzar essa fronteira não é inovação, é abdicação essencial do Direito.
Alexandria termina como um lamento que é também um alerta: o que se perde quando se queima não é apenas o passado, mas a capacidade de construir o futuro a partir do conflito de ideias. O verdadeiro especialista, aquele que acumulou dogmática, compreende os preceitos processuais em profundidade e desenvolveu intuição sobre o comportamento de tribunais específicos, não será substituído por um prompt genérico. Ele sabe qual parte da biblioteca precisa ser consultada, qual tese merece ser contestada e qual ainda está por ser escrita. É exatamente esse saber que a máquina não possui e que o mercado jurídico de alto nível não pode se dar ao luxo de abandonar.